Dossiê de Registro do modo de fazer os tapetes da procissão de Corpus Christi, Passa Quatro/MG

Dossiê de Registro do modo de fazer os tapetes da procissão de Corpus Christi, Passa Quatro/MG

As experiências em torno das noções de patrimônio imaterial vêm ganhando sustância nas políticas públicas por todo o país. As legislações federais, estaduais e municipais trazem à tona a potencialidade das ricas expressões culturais, viabilizando instrumentos que (re)conhecem as referências culturais no contexto plural contemporâneo. Por mais que essas formas intangíveis estejam presentes nos seios das diversas sociedades ao longo dos vários contextos históricos, as oficializações dos registros e dos instrumentos de salvaguarda desempenham papéis preponderantes visando à inclusão cultural dos grupos formadores das dinâmicas interioranas em Minas Gerais.

As motivações para o registro do ‘modo de fazer os tapetes de Corpus Christi em Passa Quatro’ ancoram-se nas próprias vivências cotidianas desse município mineiro. Forte elemento identitário entre os passaquatrenses, esse saber suscita sentimentos de pertencimento entre os moradores: desde aqueles que se dedicam às montagens dos tapetes, passando pelos indivíduos que explicitam suas devoções nos atos religiosos, bem como nas apreciações dos cidadãos comuns que simplesmente admiram essas obras de arte enquanto ícones da cultura local.

Em linhas gerais, o modo de fazer os tapetes de Corpus Christi mostra-se semelhante às outras localidades que adotam essa prática centenária. A primeira medida é o forramento das pedras claras e escuras das ruas da cidade, tendo na serragem a matéria-prima necessária. As fôrmas de madeira consistem em outros elementos-chave nos primeiros procedimentos, uma vez que são esses moldes concebidos previamente que funcionam enquanto referências para as complementações das serragens coloridas, borras de café, palhas de arroz e farinha de trigo. O grande diferencial está, justamente, na dosagem do ritmo dos braços e mãos dos anônimos sujeitos responsáveis pelas concepções dessas verdadeiras obras de arte. Mistos de intuição, cálculo, improviso, planejamento, esforço coletivo e lampejos individuais, as peças da tapeçaria do Corpus Christi em Passa Quatro se reinventam a cada ano.

Sob a responsabilidade técnica da empresa Memória Arquietura, a metodologia interdisciplinar norteou as atividades do dossiê elaborado em 2010. Calcado nas especificidades do bem de natureza imaterial, os integrantes da equipe estiveram atentos à fluidez das expressões culturais passaquatrenses que antecedem o Corpus Christi. Entrevistas, observações de campo, registros escritos e olhares fotográficos compuseram a miríade de práticas adotadas que propiciaram a condensação das reflexões no campo patrimonial. Urge destacar que o atual dossiê é apenas uma possibilidade de compreensão da dinâmica de seus moradores de se montar os tapetes de Corpus Christi; os olhares lançados para esse modo de fazer suscitam muitos e outros caminhos, cujos sentidos atribuídos valorizam ainda mais essa rica expressão cultural de Passa Quatro, Minas Gerais.